quinta-feira, 15 de abril de 2010

A autobiografia do artista de teatro e os três eixos norteadores da arte

Gostaríamos de iniciar este texto lembrando uma das sábias sabatinas e/ou discursos de Sócrates em que discorre acerca da transmissão da virtude através da observação .
Ao contrário das habilidades, as virtudes necessitam ser vivenciadas, praticadas efetivamente na vida e mostradas por atos e palavras. Nada garante que a virtude foi assimilada senão a observação, feita por outrem, sobre a trajetória da vida. E a apropriação da virtude (ou de qualquer bem moral) acaba por ser feita de forma particular, única, intransferível, segundo a vida de cada um. Como aprendemos no Mênon, somente o exemplo de uma vida virtuosa serve à propagação da virtude. ( PLATÃO, p.45, 2002)
No processo de aprendizagem do artista de teatro, aqui especificamos a função ATOR, lança-se mão amiúde desse recurso, a observação, bem como a escuta. Aqui abro um parênteses para uma fala do personagem Vladimir em “Esperando Godot” onde ele fala: “Quem faz força, escuta!”Esses dois recurso são primordiais na aquisição de conhecimento no que diz respeito ao âmbito artístico. Observar e não imitar, escutar bem para que consiga verter algo plausível. O exemplo é para termos um norte para onde deve-se ir.Em suma, antropofagia-se,como já dizia o glorioso Oswald de Andrade.
No âmbito escolar esse processo de aprendizado, e aqui englobamos o ensino, é bastante similar. É comum, em São Luis do Maranhão, artistas que arriscam-se numa sala de aula; onde a historia, a literatura, a estética teatral são sempre faladas sempre numa perspectiva do outro; fala-se de movimentos estéticos europeus, asiáticos ou até mesmo do Brasil no entanto fala-se de artistas de outra cidades e não da cidade natal, ou até mesmo de si enquanto operário da arte, enquanto contribuinte do fazer teatral contemporâneo.
Falar de si, abrindo mão do egocentrismo, para alguns é bastante complicado. Há atores que, ao falar de si, como exemplo, sai da trilha do conteúdo solicitado ,mergulhando no triste poço do exibicionismo barato.
Ter o compromisso com o aluno que vai ter o professor como instrumento de absorção de conteúdo é fundamental
Falar de si, autobiografia, não muito raro, fascina. Raros são os que se aiguram indiferentes diante das vicissitudes de uma vida. Poucos conseguem manter-se alheios a embates, fracassos e vitórias vividos nas existências alheias.
Por que tanto fascina as autobiografias, sobretudo no que tange no ensino de Arte? Antes, talvez se devesse perguntar: por que fascinam as trajetórias individuais? A fascinação não advém da singularidade? Provavelmente. Cada vida é una, indivisível, irrepetível, intransmissível. Expor-se enquanto objeto de análise, apreciação e discussão, talvez seja uma dos grandes objetivos dentro de uma sala de aula. Um objeto próximo desses alunos, onde possam perguntar os “por quê” e “como” que tanto ronda nossas cabeça ao nos depararmos com algo novo. Esse educador ,de uma realidade mais próxima, vai ajudá-los a contextualizar e tronar mais claro e viável aquilo que até então apresentava-se tão distante, impossível.
Ninguém fala de si em vão,pelo menos presume-se. Mas com finalidades precisas: exaltar, criticar, demolir, descobrir, renegar, apologizar, reabilitar, santificar, dessacralizar. Tais finalidades e intenções fazem com que retratar vidas, experiências singulares, trajetórias individuais se transforme, intencionalmente ou não, numa “pedagogia do exemplo”. A força educativa de um relato biográfico é inegável.
Postular a instrumentalidade educativa da autobiografia coloca-nos em face de alguns problemas, tanto de natureza geral, relativos ao EU do indivíduo, quanto específicos, relacionados com sua abordagem na relação com a educação.
Tratar-se-á do individual, da trajetória de uma dada vida, específica, concreta. A educação, por seu turno, embora lidando com cada indivíduo, trata do coletivo: dos conhecimentos, normas, valores etc., com os quais esse ser individual irá participar da vida dos discentes, isto é, da instância coletiva; ver-se enquanto objeto de apreciação, contextualização e uma possível produção. Como havíamos dito acima, tudo isso é uma antropofagização.
Tendo em vista todas essas questões, dependerá da experiência de vida consistente do arte-educador como exemplaridade educativa. Afinal, trata-se de utilizar o individual em benefício do coletivo, de fazer com que as experiências, vivências e realizações de um indivíduo sejam apropriadas pelo um conjunto de alunos, tanto em seu âmbito formal e sistemático - a escola - quanto, especialmente, no sentido educativo mais amplo – na apreciação de peças e apreensão da linguagem teatral.
A importância específica da biografia como instrumento educativo parece óbvia, pois é nos exemplos de vivências humanas reais que a educação vai buscar os modelos com os quais procura forjar a imagem de homem a ser formado pela educação. Porém, filosoficamente falando, o óbvio não pode ser ponto de chegada, mas de partida. Além de constatar a instrumentalidade educativa explícita na maioria das biografias, é necessário ir além, procurando desvendar as motivações por detrás dessa utilização dos relatos de vida.[...] A educação, na qual sempre se estabelece uma tensão entre a heterogeneidade do individual e a homogeneidade do social, tem nas biografias um instrumento valioso - único, aliás, que se presta ao teste de suas teorias na experiência insubstituível e insuperável da vida concreta -, além de constituir-se num manancial inesgotável para as exemplificações. Por isso, torna-se relevante estudar a biografia em sua instrumentalidade educativa. .(CARINO, Sociedade e Educação, 1999)



REFERÊNCIA

PLATÃO. A República. Trad. Pietro Nassetti. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2002 .
CARINO, Jonaedson. A biografia e sua instrumentalidade educativa. Educação e Sociedade. Campinas. Ed. Campinas. 1999

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