Hyphocrités
Gilberto dos Santos Martins, Licenciatura em Teatro- UFMA
O trabalho do ator é um assunto que muito chama atenção dos especialistas. Mas antes de discutirmos o ofício desse elemento essencial da arte teatral devemos definir o conceito de “ator”.
São várias as definições e/ou conceitos; que variam de acordo com as circunstâncias.
O que é o” ser” ator?
Um gravador que decora o texto?
Uma vitrola que repete a fala?
Um cesto de clichês confeccionados na inexpressividade do cotidiano?
Um instrumento que, noite pós noite, simplesmente reproduz as mesmas falas e marcações?
(A aprendizagem do Ator, p. 05, 1986)
Janô questiona essa função com bastante pertinência, pois em que consiste ser ator?
Imaginando que o teatro é uma arte ficcional , ou seja, materializa histórias que rondam apenas a imaginação, não eximindo a possibilidade do real ser presentificado. Esse ir e vir do real ao imaginário conta com um fascinante pacto entre os atores e os espectadores que estabelecem essa conivência, inconscientemente .Portanto, o ator tem o papel de extrema importância nessa troca.É ele que vai mediar o contato do público com a arte.Defini-se então que o ator é o ser que se pré-disponibiliza a libertar-se de sua vida cotidiana , de seus costumes , vaidades dando vazão à outra personalidade que não a sua. “ O ator está situado no âmago do acontecimento teatral. Ele é o vínculo vivo entre o autor do texto e o ouvido atento do espectador. O ator é o ponto de passagem de toda e qualquer vontade do encenador e de todas as diretivas do espetáculo.”(A formação do ator- um diálogo de ações, p. 07, 2003)
Por isso o ator necessita descarrega-se de todos os conceitos, preconceitos e pré- conceitos , obtendo a neutralidade mental e física tão almejada pelos teóricos modernos.
Surpreende-me bastante que boa parte das pessoas que se propõem a comungar dessa arte, que mais parece uma indústria de afetividade, não mergulham por completo, não obedecem a certos pré-requisitos descritos ao longo do deste texto, e que não foram estabelecidos pelo autor de texto mas sim pelos grandes mestres.
O ofício do ator é uma faca de dois gumes. Ora nos proporciona momentos de extremos prazeres e alegrias, inigualáveis, ora de grande frustração e sentimento de incompetência. Antes do momento da representação que é tão efêmero , o ator passa por momentos de muitas dificuldades , dificuldades essas são trabalhadas e estudadas para que no momento da atuação tudo saia perfeito.
Quando se fala em ator não podemos deixar de falar de Antonin Artaud; do seu rígido sistema de treinamento em busca da visualização do invisível.
Artaud foi buscar no Oriente uma forma de trabalho que ele até então não havia encontrado no Ocidente. Para Artaud o teatro, lugar onde se transmudam em coisas, o que mais importa é a encenação, porque através desta pode se exprimir materialmente , sobretudo fisicamente a finalidade de alcançar os sentidos. Através do sistema por ele pensado , denominado de “teatro da crueldade” o qual os atores a partir de treinamentos buscam alcançar um estado mental e uma disponibilidade física, como um pedaço de solo a ser fecundado. Ou seja, um estado de neutralidade total .Artaud propõe curar os espectadores, a cena deverá ser para o público uma “terapia para alma” , causando , assim, no espectador uma certa dependência ao tet5ro similar à de ir ao médico. A disciplina , o rigor no treinamento físico , a total dedicação ao ofício é bastante enfatizada e, penso que seja, imprescindível.
Segundo Heidegger: “ o ente, digamos a natureza no sentido mais amplo, não poderia rever-se de maneira alguma se não conseguisse ocasião de entrar num mundo. Por isso falamos de uma possível e ocasional entrada no mundo do ente. Entrada no mundo não é algo que ocorre no ente que entra, mas que “ acontece” “com” o ente.E esse acontecimento é o existir do ser-aí, que como existente transcende.Somente quando na totalidade do ente, o ente se torna “ mais ente” ao modo da temporalização do ser-aí, é dia e hora da entrada no mundo pelo ente. E somente quando acontece esta história primordial, a transcendência, isto é, quando ente com caráter do ser- no- mundo irrompe para dentro do ente, existe a possibilidade de o ente se revelar
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
JANUZELLI, Antonio, “Janô”. A aprendizagem do ator. São Paulo. Ática. 1986-96
SPRITZER, Mirna. A formação do ator- um diálogo de ações. Porto Alegre. Meditação, 2003
COPELIOVITCH, Andréa. Artaud e a utopia no teatro(artigo)
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