O artífice da arte da representação
Gilberto dos Santos Martins
(Estudante do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Maranhão)
Em todos os tempos , épocas e sociedades ,os aspectos destes são de uma forma ou de outra representados por sujeitos que estão imersos a esse tempo, quer seja através de formatos líricos, poéticos, quer seja através de manifestações.Tais fenômenos somente refletem o que é mais tendencioso nesse meio.
O homem da idade média, por exemplo, reagia à maneira medieval; o homem moderno à moderna .Entretanto, gostaríamos de enfatizar uma figura ,ou melhor, um elemento que , além de evidenciar seu tempo, demonstra-o de forma sistemática; e tem um trabalho rigoroso para representá-lo. Mas , também, representar a realidade não é uma regra, o seu trabalho é de uma profundidade que ultrapassa as barreiras do real invadindo o irreal, o fantástico, o sobrenatural,o abstrato, etc.
O que nos leva a dar tanto crédito a um sujeito desse? Por que devemos nos esforçar para entender situações que não sejam a nossa? Entender a irrealidade, o fantástico? E ainda mais pessoas treinadas para isso!
Desde os tempos mais remotos encontramos esse elemento que na Grécia antiga recebeu o nome de hipocrités, nome oriundo do verbo hipocrinestai que quer dizer “representar um personagem”.
Segunda a antropologia e a sociologia, vivemos de máscaras, mas máscaras sociais.A cada ambiente, atitudes, tomamos uma máscara diferente para nos expressar. Devemos ressaltar que, aqui não há a afirmação de que somos falsos, mas é que necessitamos dessas facetas para sobreviver. Por exemplo, não reagimos com nossos amigos da mesma forma que reagimos com nossos pais,mas nem por isso deixamos de ser verdadeiros com ambos. É como se fossemos personagens ; e é exatamente nessa composição que o artífice da arte de representar lança mão para nos mostrar o seu conteúdo .
No final do século XIX e início do século XX, surgem um senhor de origem russo e de nome artístico polonês bastante rigoroso e disciplinado , ele, desde sua infância tinha envolvimento com arte, sobretudo o teatro. Quando cresceu ,tornou-se um exímio artífice do teatro e deu origem a um sistema de treinamento que é difundido no mundo inteiro na atualidade. O russo que desenvolveu o sistema ,alvo de inúmeros equívocos no Ocidente , é chamado de Constantin Stanislásvski.
Os artífices do teatro que precederam a esse sistema obtinham um técnica que não era muito confiável, baseando-se apenas na inspiração, enquanto que a partir de Stanislávski, exigiu-se uma certa consciência cênica. A lapidação de seu trabalho vira tendência, não admitindo-se a partir de então um não acabamento da interpretação.
Após Stanislávski enveredaram na pesquisa dando outros olhares e aperfeiçoando : Vsévolod Meyerhold, Eugenio Barba,Jerzy Grotowski, Peter Brook dentre outros.
A pesquisa desses grandes mestres da arte de interpretar só aguçam o fervor que há dentro de artistas de verdades, artistas que estão de fato preocupados com a arte , com o teatro mais especificamente.
Ser um operário do teatro no mundo moderno não é muito fácil; coloca-se em evidência várias questões: o respeito pelo ofício, o dinheiro, a fama.
Para ser um exímio operário do teatro é necessário mergulhar de cabeça nesse mundo que , a principio ,não é transparente ; um mundo que é cheio de paradoxos, é doloroso e prazeroso, é cansativo e satisfatório, é o eu e o coletivo , é o choro mas também o riso, é a disciplina e o rigor consigo e com o trabalho, é o equilíbrio e o desequilíbrio de emoções,é o limite e mais profundamente o fora de limites, é o conhecer-se mas o não conhecer-se, é o desfazer-se de si dando margens ao personagem.
Para ser um artífice da arte da representação é necessário ter um grande controle de si e ter um sistema nervoso e muscular de aço, para agüentar as nossas cargas e as dos personagens.
Tudo isso perpassa pela preparação proposta por Constantin Stanislávski , citado acima. Assim como um soldado, ou guerreiro deve estar preparado para qualquer conflito, o artífice deve estar preparado para cena.O que seria de uma guerra ou de um espetáculo sem o devido treinamento de seus elementos fundamentais?
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